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Entrevista com Maria do Carmo Brant de Carvalho

10 questões sobre a Infância
Maria do Carmo Brant de Carvalho

Possui graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1965) e doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1974). Atualmente é Superintendente do Cenpec. Tem experiência na área de Serviço Social, com ênfase em Políticas Públicas; Política e Planejamento Governamental, atuando principalmente nos seguintes temas: família, assistência social, políticas públicas, política social e trabalho infantil. Atuou como professor titular do curso de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Entrevista concedida com exclusividade ao site da Fundação Xuxa Meneghel em Dezembro de 2006.

1. O que mudou no conceito de família, nos últimos tempos?

O conceito de família ganhou movimento, as pesquisas salientaram que as famílias modificaram-se historicamente e que, num mesmo período, convivem diferentes formas de viver em família. Hoje, pensar em “Família” como um único modelo, como uma composição padrão, é ignorar uma grande diversidade de arranjos existenciais funcionais e relegá-los preconceituosamente a uma categoria inferior.

2. Com todas as transformações pelas quais passam as relações sociais e, conseqüentemente, familiares, como podemos identificar o atual papel das famílias na socialização e educação das crianças?

As famílias continuam sendo o campo privilegiado dos afetos e da formação relacional das crianças. As famílias são co-responsáveis, juntamente com a sociedade e o Estado, pela proteção das crianças e são atravessadas por processos que vão além delas, como é o caso, dentre outros, do desenvolvimento tecnológico e da presença maciça da comunicação midiática; dos processos socioeconômicos; das políticas públicas e das mudanças de legislação. Todavia uma criança vem ao mundo na relação com seus pais e é no campo familiar onde encontra o melhor ambiente para se desenvolver.

3. Os pais vivem um permanente e ancestral desafio na educação de seus filhos, pois socialmente são responsabilizados pelo sucesso ou não dos resultados desse processo de educação. Há uma expressiva busca por modelos bem sucedidos. Mas os fatores que influenciam a formação das crianças são cada vez mais variados. Que fatores/elementos são esses? Os pais ainda podem ser responsabilizados pela sua influência na formação dos nossos meninos e meninas?

A responsabilização dos pais pelo sucesso dos filhos varia historicamente, pode ser considerada uma característica da família nuclear burguesa, mas certamente não era uma característica das famílias da idade média nas quais mesmo a mortandade das crianças não era de responsabilidade dos pais, mas sim uma mescla de desígnios divinos, sorte e ação dos pais.

Educação é um conceito amplo e pode ser lido de diversas formas, como transmissão de valores, de comportamentos e da própria aprendizagem formal. Vamos nos restringir ao aspecto formal meramente para efeito de argumentação.

Devemos ressaltar que diferentes famílias têm relações diferentes com os resultados dos processos educativos de seus filhos, no campo dos grandes esboços sociais podemos esperar que famílias escolarizadas, bem nutridas e com renda impliquem-se com a educação formal no sentido de valorizá-la, acompanhá-la, suplementá-la e enfrentar seus percalços no recurso a saberes profissionais diversos. À medida que a renda e a escolarização decaem, crescem exponencialmente as dificuldades, chegando aos limites das dificuldades de nutrição e da necessidade de sobrevivência como impedimentos à escolarização. Não é à toa que merenda escolar e programas de suplementação de renda têm papel garantido nas discussões sobre educação pública.

A responsabilização social dos pais pelo sucesso ou fracasso na educação dos filhos deve, então, relacionar-se com as condições das famílias, do contrário corre-se o risco de acrescentar uma culpabilização moralizante às dificuldades enormes das famílias em condições de vulnerabilidade social.

No âmbito micro, do acompanhamento de famílias, existe uma enorme variedade na tomada da responsabilidade da educação dos filhos pelos pais. Há pais socioeconomicamente privilegiados que buscam as teorias individualizantes e biologizantes da moda para afastar de si as conseqüências dos percalços educacionais dos filhos, bem como pais de famílias paupérrimas que apesar das condições desfavoráveis tomam para si a tarefa de insistir na educação formal. As variações são imensas.

Pelo percurso da resposta podemos depreender que os fatores que influenciam na formação das crianças são múltiplos e variados, indo da psicologia à economia, passando pela cultura e condições locais e globais. Podemos acrescentar a eles a influência dos meios de comunicação que realizam a presença da sociedade no âmbito familiar e especialmente para as crianças de uma forma que os pais muitas vezes sequer se dão conta. As conseqüências educacionais da exposição à sociedade de espetáculos ainda está sendo questionada.

Quanto à pergunta: “Os pais ainda podem ser responsabilizados pela sua influência na formação dos nossos meninos e meninas?”, parece-me claro que os pais não podem ser responsabilizados por todos os fatores intervenientes na educação, mas que podem e devem ser responsabilizados por sua influência, pelas escolhas que fazem dentro das possibilidades que se apresentam a eles. Do contrário, a própria idéia de responsabilidade parental ficaria sem sentido.

4. A violência doméstica é um fenômeno que acontece em todas as classes sociais, independentemente de renda, nível de escolaridade, religião. Quais as principais diferenças entre a VD nas famílias que se encontram nos dois extremos da pirâmide social?

As pesquisas no campo da violência doméstica enfrentam uma série de dificuldades, a principal diz respeito ao acesso às informações. A despeito disso temos algumas comparações efetuadas (Saffiotti:2004/20)1 afirmando que o incesto nas camadas mais bem aquinhoadas, social e economicamente falando se dá a partir da sedução, do privilégio oferecido àquela menina, enquanto que nas camadas desfavorecidas o processo se dá numa relação de força e ameaça. As conseqüências disto, segundo a autora, são que as filhas seduzidas carregam um maior fardo de culpa em relação àquelas submetidas através da agressão física e da ameaça.

Todavia considero mais importante do que destacar as diferenças práticas entre as violências, as diferenças entre o tratamento dado às famílias ricas e famílias pobres que passam por episódios de violência.

As famílias pobres utilizam serviços públicos, quando eles existem. Assim, a creche, a escola, o posto de saúde e o centro comunitário são espaços nos quais suas práticas estão sendo observadas, podemos dizer vigiadas, por diversos agentes públicos. Existe uma exposição das famílias pobres aos saberes dos agentes públicos e uma cultura da orientação às famílias pobres, ou seja, uma cultura na qual se diz como as famílias pobres devem tratar seus filhos. As famílias naturalmente não seguem todas as instruções, mas estão expostas a elas. Embora estejamos ainda engatinhando em termos de treinamento para que agentes públicos possam identificar a violência doméstica e reagir a ela, existe uma crescente preocupação e um consenso que ela não deve ser permitida e sim denunciada aos órgãos competentes. A violência doméstica no âmbito das famílias pobres tende a ser criminalizada.

As famílias ricas, ao contrário, são usuárias de serviços pagos e são relativamente autônomas para a contratação daqueles serviços que sejam coerentes com seus princípios educativos, ao mesmo tempo, tem-se a idéia de preservar o núcleo familiar da curiosidade e da intromissão de terceiros. Assim as famílias ricas não estão expostas às orientações indesejadas e têm maior possibilidade de proteger seus territórios com o acesso a contratação de prestadores de serviço. Os problemas de violência doméstica aparecem então a partir de sintomas e em sistemas de tratamento, nas psicoterapias, nos acompanhamentos pedagógicos. A violência doméstica tende a ser psicologizada nas famílias ricas, encarada como um subproduto de descontroles emocionais dos pais, ou mesmo como um repertório de fantasia da criança.

Resumindo: a violência doméstica pede enfrentamentos legais e de tratamento; ela aparece através dos sintomas, sendo rara a procura espontânea dos serviços voltados para o tema; os sintomas são “lidos” por profissionais que os decodificam e apontam enfrentamentos; a ênfase aos enfrentamentos indicados às famílias ricas está no tratamento; a ênfase nos tratamentos determinados às famílias pobres está na repressão; as famílias buscam preservar seu funcionamento e privacidade, mas as famílias ricas apresentam meios muito mais eficientes para realizar tal tarefa.

5. A violência intrafamiliar é um assunto recorrente nas instituições que realizam atendimento a crianças. Constitucionalmente, o Estado, a sociedade e a família são responsabilizados pelos cuidados e proteção à criança – “sujeito de direitos em especial processo de desenvolvimento”. Qual o papel de cada uma dessas instituições e como elas deveriam se relacionar para cumprir de fato esses papéis, garantindo o melhor interesse da criança. Qual o papel dos educadores nessa relação?

Felizmente existe uma crescente preocupação quanto as diferentes formas violentas de relação, sejam elas dentro ou fora da família. No campo das instituições não se pode deixar de mencionar as violências advindas do preconceito social, racial e de gênero. Não existe um lugar a salvo de violência, nem a família, e tão pouco as instituições que realizam cuidados são seguras, assim é constante o processo de pôr em relevo as violências e enfrentá-las.

A violência intrafamiliar tem ganhado especial relevo nos últimos anos a partir da retirada do manto da inviolabilidade familiar e a divulgação dos casos mantidos nos porões das histórias familiares. Pautar a existência da violência doméstica como um problema sério e merecedor de tratamento no Brasil, vem especialmente do trabalho de um grupo de pesquisadores sobre o tema e de militantes que se organizaram a partir do LACRI – Laboratório de Estudos da Criança do Instituto de Psicologia da USP – e de seus cursos nas últimas duas décadas. A presença desta pauta de discussão é um dos frutos do trabalho já realizado.

A questão das responsabilidades compartilhadas entre Estado, sociedade e famílias para garantia dos direitos das crianças é uma questão ampla demais para ser respondida por uma pessoa, por um grupo e talvez por uma geração. Tão pouco é uma questão estática, ela pode e deve ser respondida de formas diversas em diferentes períodos. Ela é uma questão-guia, norteadora. Estão todos implicados e responsáveis; cada segmento interage com os demais ao mesmo tempo em que mantém um funcionamento próprio. Parece enganoso pensar que elas são estanques, suficientemente autônomas para que possamos pensar na relação entre elas a partir de um momento ou de um tema, eles se relacionam desde sempre. Seria possível conceber nossas famílias sem sociedade? Nossa sociedade sem famílias, ou sem Estado? Estado sem sociedade? Certamente não.

Entendo que as famílias encontram-se na sociedade e para cuidarem e protegerem suas crianças precisam ser cuidadas, protegidas e terem acesso aos direitos básicos. Ao Estado e à sociedade cabem não apenas o estabelecimento das condições para que os cuidados familiares possam se dar, bem como à fiscalização sobre o cumprimento dos direitos das crianças e adolescentes.

Podemos pensar os educadores então com as funções de garantir o direito básico da educação das crianças e adolescentes, promover conjuntamente com as famílias a socialização das crianças e adolescentes e zelar para que outros direitos deles não sejam cerceados.

6. Quando trazido para um debate social mais amplo, o tema da violência doméstica contra crianças e adolescentes gera muita polêmica. Um dos aspectos mais questionados é o da interferência na vida privada. A nossa cultura pressupõe que os pais podem tudo em relação aos métodos de educação de seus filhos. Os argumentos vão de aspectos religiosos (“corrige com a vara”), culturais (“pé de galinha não machuca pinto…”) a relatos pessoais como “apanhei e por isto virei um sujeito de bem… e não tenho problemas por isto”; “se eu não educar e corrigir, a vida o fará de forma mais dura e perversa”. Este fenômeno não é exclusividade do nosso país, pois apenas 16 países no mundo já aboliram o castigo físico e humilhante contra crianças. Por se tratar de um fenômeno que ocorre dentro do espaço doméstico, onde os agressores são as pessoas que de fato teriam o dever de proteger, como podem concorrer os direitos humanos tanto para um tratamento sem violência, a que todas as crianças têm direito, quanto para a preservação da privacidade da vida doméstica. Como você percebe o conflito entre esses direitos?

Considero enganoso pensar que em nossa cultura os pais podem tudo em relação aos métodos de educação de seus filhos, dar por descontado isto é perder uma boa batalha. A cultura raramente é homogênea, unânime, a cultura de educação dos pais brasileiros pode guardar ecos do poder incontestável e legalizado do “pater familae” do direito romano, ou do poder real do proprietário da “Casa Grande”, mas certamente guarda ecos também da liberalidade não-violenta indígena e da maternagem acolhedora da “Senzala”. Fazemos-nos não só de castigos, mas também de chamegos, cheiros, cafunés e afagos.

Em nossas expressões comuns, também existem “tenho você como a um filho, jamais lhe faria mal!”, “as crianças são os olhos de Deus”. Ou seja, temos elementos culturais para trabalhar modelos de educação não baseados exclusivamente na repressão e nos castigos físicos, mesmo reconhecendo a predominância de elementos culturais patriarcais, adultocêntricos, racistas e patrimonialistas. Em resumo, devemos considerar a cultura também como construída por homens e passível de ser reconstruída.

Também considero enganoso pensar que a intervenção na vida privada seja o elemento central da resistência ao pensar na educação não-violenta. Temos uma longa tradição intervencionista junto às famílias, especialmente às famílias pobres, elas na verdade nunca tiveram um direito à privacidade garantida e defendida. Pensemos nas famílias negras da Senzala, nas famílias indígenas na melhor das hipóteses agrupadas e familiadas num modelo católico e para chegarmos mais perto de nós, nas famílias das empregadas domésticas que até pouco tempo viviam para seus patrões e vivem nas aglomerações da periferia. A privacidade da família pobre está ao alcance do ouvido de seus vizinhos.

O Estado é um grande interventor em relação às famílias pobres condicionando moradia, educação, hábitos higiênicos (a vacinação obrigatória merece destaque) e possibilidades reprodutivas. Historicamente a Igreja Católica Romana foi grande interventora na privacidade das famílias atingindo e limitando mesmo os hábitos corriqueiros e atingindo inclusive as famílias ricas.

Assim não consigo construir a questão como um conflito de direitos, mesmo porque, sem ter um estudo sistemático sobre Direito, não vejo, por exemplo, a apuração de crime ser colocada como em conflito com o direito à privacidade, ou sua punição como em conflito com o direito de ir e vir. O direito à privacidade vige enquanto os direitos de outrem não forem violados.

Se não considero a questão conflituosa entre os direitos como o elemento central da discussão, formulação que penso estaria melhor posta frente à sociedade norte-americana, por exemplo, onde a organização social se baseia no direito individual e na tradição de sua defesa. E se tão pouco a privacidade parece ser um valor ou uma conquista já adquirida para a grande maioria de nossa população, o debate sobre violência doméstica pode ser ampliado e recontextualizado a partir desta questão. Para garantirmos a dignidade e a proteção das crianças e adolescentes não podemos destruir a dignidade e proteção de seus pais. A educação não-violenta deve prescindir do recurso à própria violência e considerar a alteridade como um valor. O combate aos atos de violência doméstica deve levar em conta também os direitos dos pais agressores a um tratamento digno, protetivo e respeitoso. Não advirão da violência comportamentos pacíficos e inspiradores de outros valores.

O risco que se corre num país como o nosso, de extensa história de intervenções sociais autoritárias, é de reproduzir o autoritarismo em relação às populações menos favorecidas no bojo de ações para garantia dos direitos de segmentos desta mesma população. Denúncia, apuração, responsabilização e tratamento das situações de violência doméstica não necessariamente têm de ser conduzidas de forma a expor e agredir aos pais agressores.

Com procedimentos judiciais burocratizados e de difícil acesso à população em geral, os serviços de advocacia gratuita tornam-se instrumentos necessários para a defesa de direitos das crianças e adolescentes, mas também de seus pais e responsáveis, sendo o campo ainda carente da popularização da advocacia na área menorista.

7. Trazer este tema considerado invisível (por ocorrer no espaço privado) para o debate público é um dos recursos para mudar o quadro….Quais outros instrumentos você recomendaria para prevenir e tratar desse fenômeno?

Quando pensamos em debate público, pensamos num debate de várias frentes, cabeças e posições. Penso que o assunto esteja pautado no plano dos agentes sociais e, como disse, este é um fruto de um longo trabalho, todavia o debate não parece estar enraizado junto às populações vulnerabilizadas socialmente e penso que este seja um desafio presente porque ele pressupõe uma adequação de forma (no sentido de superar os aspectos informativos e construir situações de real debate) e uma consideração à interação da defesa de direitos segmentados num universo de supressão de outros direitos básicos.

No campo da divulgação do tema o tema ainda não me parece ter sido veiculado através da TV de uma forma que enseje discussões, neste simulacro de espaço público que são as novelas. As famílias de novela não castigam e por isso é como se a violência doméstica não existisse neste campo.

Na mídia em geral o tratamento é pobre e pululam as oposições rasteiras do tipo ou se bate, ou se deixa fazer tudo. Então temos muitas frentes para aprofundar a discussão.

No campo da prevenção, a educação não-violenta é a melhor resposta em longo prazo, neste sentido divulgação de formas de contenção não-violenta de crianças birrentas, como, por exemplo, a técnica do abraço, tem um papel especial. Aqui o treinamento dos educadores tem papel especial, se eles souberem agir em seus lares e trabalho sem recorrer à violência física ou a ameaça dela, eles terão chance de ensinar tais procedimentos.

No campo dos tratamentos os esforços de formação e requalificação dos agentes públicos são infinitos. Somente quando o assunto estiver incorporado e não apenas pautado, teremos uma verdadeira mudança de atitude em relação ao tema. Destaca-se hoje a importância de focar os Conselheiros Tutelares e oferecer a eles informação e treinamento de forma rápida e adequada.

O desafio de tratar os abusadores também ainda não foi enfrentado a contento, é urgente a pesquisa de procedimentos eficientes nesta direção. Além disso, teremos que abrir uma porta para considerar que os que trabalham com violência necessitam serem cuidados por sofrerem os efeitos desta mesma violência.

8. Tanto na abordagem como na prática do atendimento direto realizado às crianças vítimas de violência, quais são os mecanismos mais adequados que podem ser adotados pelos educadores para conciliar o dever de proteção à criança e a responsabilização das famílias?

É dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente (art.70 ECA). Assim, tanto os pais quanto os educadores tem responsabilidades quanto á tarefa, sendo que cada ator poderá ser responsabilizado de acordo com seus atos ou omissões.

A responsabilização dos pais em relação à agressão dos filhos entendida enquanto processo de imputar responsabilidade civil ou criminalmente é um processo que o educador pode acionar e tem obrigação de fazê-lo através da denúncia, mas uma vez a denúncia feita ela segue a lógica dos procedimentos legais. Ou seja, ele transcende a esfera do controle do educador, mas que ainda assim tem funções importantes.

Um temor comum aos educadores que efetuam denúncias é o medo de que as ações em relação à família denunciada sejam duras demais e causem dano à própria criança. Para se prevenirem em relação a isto eles, dentro de suas atribuições, podem participar ativamente no processo fornecendo informações, mas principalmente amparando a criança/adolescente. O educador pode também buscar ser um elo entre os agentes públicos envolvidos no caso específico.

O acesso aos mecanismos de fiscalização do próprio sistema, nos quais o Ministério Público tem papel destacado e o acesso aos espaços públicos implicados no planejamento e execução das políticas públicas voltadas ao setor como os Conselhos Municipais de Direito da Criança e Adolescente, também são possíveis.

No campo da responsabilização dos agressores poderão ocorrer também conseqüências legais para os agressores que impliquem em mudanças drásticas para a criança, como o afastamento de um dos genitores, ou mesmo a prisão dele. Bem como mudanças práticas como a separação dos pais. Nestas situações um dos papéis importantes do educador é evitar que a criança se culpe e/ou seja culpabilizada pela própria família pelas conseqüências, o que equivaleria a uma revitimização.

Na situação extrema do abrigamento o educador social tem papéis fundamentais: suprir afeto, estabelecer rotina, propiciar o entendimento de cada situação, favorecer a elaboração emocional e estabelecer ponte entre a criança e a família.

O educador também tem papel privilegiado nas situações menos drásticas. Por ter o contato constante com a criança ele torna-se o elo fundamental para que o mecanismo de proteção funcione, sua capacidade de estabelecer vínculo é o princípio básico a partir do qual se desdobram todas as ações. A questão fundamental para o educador conciliar a responsabilização dos pais, tomada aqui como conscientização da função parental e fortalecimento dos vínculos entre os pais e seus filhos, é não somente fazer na relação com a criança/adolescente, mas promover que os pais façam por eles mesmos, ou seja, trabalhar também na função de treinador e não somente de jogador substituto.

9. O Estatuto da Criança e do Adolescente completou 16 anos. Já avançamos no aspecto legal, mas ainda há muito o que caminhar nas relações de proteção dos direitos especiais das crianças e adolescentes no cotidiano. Como os diferentes níveis das políticas públicas de educação – da pré-escola à universidade – poderiam contribuir para a aplicabilidade do princípio de colocar a infância como prioridade para a mudança de perspectiva de desenvolvimento dos direitos humanos no nosso país?

Inclusão social, cidadania, desenvolvimento econômico, direitos humanos e prioridade para crianças e adolescentes têm em comum a plataforma da escola pública e de qualidade e nenhum destes objetivos ou campos pode sobreviver ao fracasso da escola.

A escolarização é a agenda mínima de um país diferente e todos os setores têm responsabilidade na construção dela. A ênfase no acesso à pré-escola é uma pauta importante para mudar os padrões atuais, mas todos os outros desafios ainda estão colocados: acesso à escolarização; possibilidades de manutenção da criança na escola; combate a repetência; construção de uma escola atrativa, não-violenta, aberta à diversidade e de qualidade, que ajude a formar cidadãos e que transmita conteúdos; acesso ao nível médio e superior de ensino.

Podemos e devemos melhorar em todos os aspectos e nesta empreitada tem lugar desde o pai voluntário até o pesquisador de novas tecnologias, desde os pais paupérrimos até as grandes corporações.

10. As pesquisas indicam que a maior parte da sociedade aprova o uso do castigo físico na educação dos filhos, para impor limites. Para a ocorrência de violência contra as mulheres, a Lei 11.340 de 7 de agosto de 2006 – Lei Maria da Penha, que criminaliza o agressor é celebrada pelos movimentos sociais (que tratam das questões de gênero e direitos humanos) como uma grande conquista. Em relação às crianças, você acredita que teremos que percorrer o mesmo caminho (a instituição legal)? Ou há outras alternativas para prevenir, ou impedir a violação dos mesmos direitos da criança e do adolescente?

A citada Lei Maria da Penha veio a corrigir um buraco legal que colocava a agressão contra as mulheres como de menor poder ofensivo, que não protegia as agredidas e penalizava os agressores de forma excessivamente branda. A prática corrente de transformação da pena pela agressão do homem à mulher em pagamento pecuniário ou prestação de serviço à comunidade mostrou-se ineficiente para conter as agressões, mantendo a sensação de impunidade. A situação como estava poderia ser colocada caricaturalmente como “pagar uma cesta básica para bater na mulher”.

Existiam problemas também quanto aos trâmites legais já que as agressões estavam junto com outros delitos considerados de menor potencial agressivo como as brigas de vizinho e crimes de trânsito (pela nova Lei foi estipulada a criação de Juizados Especiais de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher). Verdadeiros atos sem sentido ocorriam como o pedido de que a própria agredida entregasse ao agressor a intimação para a delegacia. A agredida era ameaçada pelo agressor para a retirada do processo e não contava com proteção, não havia a figura, por exemplo, da agressão conjugal por pessoas do mesmo sexo e a caracterização das violências psicológicas e a obrigatoriedade de tratamento para o agressor. Para se ter uma idéia do impacto transformador da Lei sugerimos a consulta à Secretaria de questão de gênero e etnia (www.contee.org.br/secretarias/etnia/materia).

Entendemos que a situação das crianças e adolescentes agredidos não guarda paralelo com as agressões às mulheres no tocante ao buraco legal. Pelo ECA os delitos cometidos contra crianças e adolescentes consistem em agravamento penal que pode resultar no acréscimo da pena em um terço, os pais enfrentam processos de suspensão e perda do pátrio poder, existe a figura do afastamento do agressor do lar e a determinação de tratamentos obrigatórios aos pais, além do que podemos falar de uma repulsa ao espancamento das crianças. Não se trata do mesmo quadro e não se tratará do mesmo mecanismo de enfrentamento. A propósito, a Lei não garante o enfrentamento, ela apenas fornece instrumentos e os instrumentos oferecidos pelo ECA ainda não foram explorados a contento, ou seja, antes de clamar por uma nova Lei, vamos utilizar os recursos daquela que temos em mãos.

Infelizmente as pesquisas citadas na pergunta que apontaram “que a maior parte da sociedade aprova o uso do castigo físico na educação dos filhos, para impor limites” não foram explicitadas para que pudéssemos analisá-las em profundidade, mesmo assim, a frase citada aponta que a aprovação da violência está condicionada à imposição de limites, o que contextualiza um grande campo de trabalho educativo. Caso a imposição de limites dos pais aos filhos possa ser aprendida e se dar de forma não-violenta cai por terra a justificativa dos castigos físicos. Caso divulgue-se que os castigos físicos podem contribuir para a perda dos limites, os castigos poderão ser vistos como ineficientes. Caso se mostre que o castigo físico pode dizer mais respeito a uma descarga do adulto do que a uma função educativa para a criança, outro fundamento da crença na eficácia do castigo físico poderá ser solapado. Ou seja, existem enormes desafios educativos para que nós possamos tomar em nossas mãos a tarefa de construir nossa sociedade.

 

Um comentário

  1. Amanda Cláudio dos Reis says:

    Amei a entrevista! Aliás, para quem não conhece a entrevistada é referência bibliográfica constante em nosso curso!
    Sou aluna de Serviço Social na UNAERP Campus Guarujá, o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) gira em torno dessa problemática, cujo tema é Violência Física Intrafamiliar contra Crianças e Adolescentes.
    Faço estágio no Centro de Referência de Assistência Social (CREAS/Sentinela), onde trabalho inserida nesse contexto de luta contra o silêncio e omissão de qualquer tipo de violência, e percebo a extrema necessidade de articular políticas públicas construindo uma rede que realmente possa efetivar os direitos de nossas crianças e adolescentes assim como está previsto no ECA.
    A escola, assim como outros órgãos públicos ou privados que prestam serviços à crianças e adolescentes, podem e devem notificar casos ou mesmo suspeitas de violência.
    Para tanto, uma mediação necessária e ainda tímida em relação a proteção e ao enfrentamento da violência, é a necessidade de divulgação de informação, fomentando discussões sobre essa problemática que infelizmente ainda faz parte da realidade de muitas famíias brasileiras.

    Amanda
    futura assistente social e militante na luta contra qualquer tipo de violência, em qualquer contexto e contra qualquer ser.

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